

O desejo tem um rosto





Dois jovem apaixonados devem escapar deles mesmos, pois uma entidade assume a forma das pessoas que eles mais desejam, no caso, eles mesmos.

# Gostei mais das possibilidades **⚠️ SPOILERS DE LEVITICUS** *Leviticus* é um filme que gostei mais pelas possibilidades que apresenta do que por aquilo que efetivamente consegue fazer com elas. E isso é frustrante justamente porque existem ideias muito boas aqui. O filme começa muito bem. Antes de qualquer terror, explicação ou entidade, acompanhamos dois adolescentes se descobrindo e se relacionando praticamente em silêncio. Sem música ditando o sentimento, sem diálogo explicando o que estamos vendo. Só dois garotos compartilhando um momento. **É simples, leve e bonito.** Conhecemos melhor esses personagens: de um lado, um garoto mais isolado, numa escola nova, com dificuldade de construir relações e emocionalmente distante até da própria família. Do outro, alguém muito mais confortável transitando entre grupos e pessoas diferentes. Quando o primeiro percebe que talvez não fosse tão especial quanto imaginava naquela relação, reage no calor da rejeição e expõe a sexualidade do outro para os pais dele. É uma atitude cruel, com consequências enormes. Mas o filme também constrói esse personagem como um adolescente fragilizado, isolado, sem recursos emocionais para lidar com rejeição e abandono. **Existe responsabilidade pelo que ele fez, sem que seja preciso transformá-lo simplesmente em vilão.** E é através dessa decisão que *Leviticus* chega à sua melhor ideia: **a entidade.** Os pais, incapazes de aceitar a sexualidade do filho, recorrem ao místico como tentativa de "cura". A entidade invocada tem uma regra particularmente cruel: assume a aparência da pessoa que você ama. A solução para ficar seguro é se afastar. Negar aquela pessoa. Negar aquele amor. Existe algo perverso nisso: a entidade não precisa matar para cumprir seu propósito. Basta transformar o amor em algo perigoso o suficiente para que os próprios garotos escolham abandoná-lo. > **Nesse sentido, ela funciona quase como uma terapia de conversão sobrenatural.** E é aqui que *Leviticus* poderia ter se tornado um filme muito mais assustador pra mim. Se a pessoa na sua frente pode ser seu parceiro ou algo querendo matá-lo, como confiar de novo? O filme brinca com essa paranoia — existem momentos em que a gente mesmo questiona se aquele garoto é quem parece ser, e algumas revelações funcionam bem justamente por isso. Só que essa sensação nunca escala como poderia. O terror chega a um determinado nível e permanece ali até quase o final. A premissa permitiria colocar os dois garotos numa situação cada vez mais angustiante: querer ficar juntos enquanto a própria proximidade representa perigo. Não conseguir tocar, confiar ou permanecer perto da pessoa amada sem pensar: > **"É realmente você?"** Amor gerando proximidade, proximidade gerando dúvida, dúvida gerando medo, e medo provocando justamente o afastamento que a entidade foi criada pra produzir. **O filme apresenta essa possibilidade, mas não a leva até as últimas consequências.** E acho que esse é meu principal problema com o filme: muitas ideias, muitos temas, algumas imagens excelentes — mas pouco tempo, ou pouca confiança, pra desenvolver tudo isso completamente. Até momentos de horror que funcionam bem acabam passando rápido demais. A descoberta do corpo de Hunter é uma imagem brutal, forte — mas logo seguimos em frente. Isso acontece algumas vezes: uma ideia aparece, funciona, cria alguma possibilidade, e a narrativa precisa correr pra próxima. Talvez parte do problema esteja na necessidade de explicar demais a própria mitologia. *Leviticus* dedica espaço pra construir regras e lore pra uma simbologia que já é bastante poderosa sozinha. A entidade como manifestação do preconceito não precisava ser tão explicada pra funcionar. Existe uma ideia mais assustadora escondida ali: pra esses garotos, identificar onde existe segurança nunca é simples. Quem vai aceitá-los? Quem vai julgá-los? Quem pode expô-los? A entidade poderia transformar essa insegurança social em paranoia sobrenatural — não só "meu namorado pode ser o monstro", mas a sensação constante de nunca saber onde é seguro existir do jeito que você é. E talvez seja por isso que o plano final tenha funcionado tão bem pra mim. Depois do confronto, existe uma possibilidade de fuga. Os garotos podem abandonar aquele ambiente, aquelas famílias, construir algo diferente juntos. A entidade aparentemente foi derrotada. Até que ela aparece de novo no horizonte. Não senti medo ou tristeza naquele momento. Senti quase um conformismo. **"É isso."** Você pode derrotar aquela manifestação específica, sair daquela casa, fugir daquela cidade — mas algumas coisas continuam existindo. Se a entidade também pode ser entendida como representação do preconceito, talvez não exista vitória definitiva. Existe só a escolha de continuar vivendo apesar da possibilidade de encontrá-lo de novo. E a música do Frank Ocean no encerramento funcionou muito bem pra mim dentro dessa leitura. No fim, *Leviticus* é um filme que acerta e erra bastante. Gosto da fotografia, da abertura quase silenciosa, de como aborda descoberta sexual e isolamento, do conceito da entidade, de algumas imagens de horror e principalmente das possibilidades por trás da metáfora. Mas talvez existam ideias demais pro espaço que o filme tem. Ou talvez o roteiro tenha escolhido explicar aquilo que poderia ficar nas entrelinhas, enquanto desenvolve pouco algumas das ideias que mais mereciam espaço. Não acho *Leviticus* ruim. Gostei, recomendo, existem coisas muito interessantes aqui. **Talvez seja justamente por isso que seus problemas tenham me incomodado — porque consigo enxergar um filme muito mais assustador, paranoico e complexo dentro da mesma premissa.**

Vi Leviticus sem saber absolutamente nada sobre o filme e, cá entre nós, cada vez mais, começo a achar que é assim que encontro as maiores surpresas, pois acabo por descobrir filmes que provavelmente nunca escolheria se tivesse visto o trailer ou lido demasiado sobre eles. A história acompanha um jovem que se apaixona por outro rapaz, até que os dois começam a ser perseguidos por uma entidade sobrenatural (e bastante homofóbica) capaz de assumir a forma das pessoas que mais amam. E é aqui que se nota uma forte inspiração em It Follows (2014). O facto da entidade assumir a aparência de alguém especial, o que cria uma tensão muito interessante, levando-nos, enquanto espectadores, a tentar perceber se o protagonista está realmente perante alguém real ou se é a entidade a tentar aproximar-se dele para o matar. Também gostei da forma como Leviticus utiliza o terror para falar de homofobia. Invocando uma crítica social interessante e, curiosamente, acho que consegue fazer aquilo que They/Them (2022) tentou fazer, mas de uma forma muito mais eficaz e sem ser woke ou exagerado. O principal problema está mesmo no final, que após construir tanta tensão, me fez esperar por um desfecho mais intenso e impactante, acabando por terminar de uma forma um pouco morna. Mesmo assim, gostei de Leviticus. Não ficará para sempre na minha memória, mas foi uma agradável surpresa. Se o final tivesse tido a mesma intensidade do resto, provavelmente estaríamos perante um trabalho muito mais memorável.


